Cartazes, posts, laços amarelos por toda parte, assim normalmente é todo o mês de setembro. E é ótimo que esse assunto ganhe espaço, mas eu quero te fazer um convite diferente: que a gente continue essa conversa depois que setembro terminar.
Na prática, a saúde mental do seu filho não tira férias quando o Setembro Amarelo termina. Como odontopediatra, eu percebo isso todos os dias, da cadeira do consultório. A gente conversa muito sobre escovação, cárie e hábitos alimentares, e é certo que seja assim. Mas quase nunca paro para contar que a forma como acolhemos as emoções da criança e a ajudamos a enfrentar os próprios medos também faz parte do cuidado com a saúde dela. Uma criança que se sente compreendida chega mais segura ao dentista e constrói, desde cedo, uma relação mais tranquila com o próprio corpo. É sobre isso que eu quero falar com você neste texto.

Porque o dentista tem que falar sobre saúde mental?
Talvez você esteja pensando “mas isso não é assunto de psicólogo?”. E sim, quando o tema pede, é, e eu sempre vou te encaminhar quando perceber que é o caso. Mas a saúde emocional das crianças se constrói (ou se fragiliza) em pequenos momentos do dia a dia, em qualquer ambiente que a criança frequenta. E o consultório odontológico é um desses ambientes, muitas vezes um dos primeiros fora de casa em que seu filho vai precisar lidar com medo, desconforto e a sensação de não ter controle sobre o que está acontecendo com o próprio corpo.
Os números me fazem levar isso ainda mais a sério. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS) estima que entre 10% e 20% dos adolescentes no mundo vivem algum problema de saúde mental, muitas vezes sem diagnóstico nem tratamento adequados, e que metade de todas as condições de saúde mental começam a se manifestar até os 14 anos de idade. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) levantou, com base em dados do Ministério da Saúde, que as internações de adolescentes de 10 a 14 anos por transtornos mentais aumentaram 107% em dez anos. E dados divulgados pela campanha Setembro Amarelo mostram que, entre 2016 e 2021, o número de suicídios entre adolescentes de 15 a 19 anos cresceu 49,3%, e entre crianças de 10 a 14 anos, 45%.
Eu não te conto isso pra te assustar. Conto porque, segundo a cartilha “Informando para Prevenir” da Associação Brasileira de Psiquiatria e do Conselho Federal de Medicina, 96,8% dos casos de suicídio registrados estão associados a algum transtorno mental que poderia ter sido tratado, e tratamento, na infância, começa muito antes de um diagnóstico. Começa em como a gente escuta uma criança desde pequena.
Por isso, mesmo sendo setembro o mês do laço amarelo, eu prefiro pensar (e te convidar a pensar comigo) nesse cuidado como algo do ano inteiro: em janeiro, em julho, em qualquer consulta de rotina, em qualquer conversa na sala de espera.
“Escuta ativa” o que é isso, na prática, com uma criança?
Você já deve ter ouvido esse termo. Escuta ativa vem da psicologia humanista e é, resumindo, um jeito de escutar que vai além de ouvir palavras: é prestar atenção plena, sem julgar, tentando entender de verdade o que a outra pessoa está sentindo, inclusive o que ela não consegue colocar em palavras.
Com criança, isso tem uma particularidade importante: ela nem sempre tem vocabulário pra nomear o que sente. Muitas vezes ela vai te dizer “eu não quero ir”, “dói”, “eu não gosto daqui” e, se a gente não escutar com atenção, é fácil confundir isso com birra, manha ou falta de educação, quando na verdade pode ser medo, insegurança ou desconforto real.
Algumas coisas que eu tento fazer aqui no consultório e que você também pode fazer em casa:
- Ficar na altura dos olhos dele antes de falar, em vez de conduzir a conversa de cima para baixo.
- Deixar que ele termine de falar, sem completar a frase por ele ou apressar a resposta.
- Repetir com suas palavras o que ele disse (“então você ficou com medo do barulho, é isso?”) pra confirmar que você entendeu certo.
- Prestar atenção no corpo dele também, postura, respiração, choro contido, não só nas palavras.
- Evitar frases como “não é nada” ou “para de exagerar”, mesmo quando o motivo do medo parece pequeno pra você.
Isso não é só gentileza, é bem prático: quando seu filho sente que quem está na frente dele você, o pediatra, eu.. realmente o escuta, ele coopera mais e fica menos ansioso. Boa parte do medo infantil vem justamente da sensação de não ter voz nem controle sobre o que está acontecendo com o próprio corpo.
Por que validar o que seu filho sente é tão importante quanto tratar o dente dele
Validar um sentimento é diferente de concordar com um comportamento. Validar é reconhecer que aquela emoção é real e legítima pra ele, mesmo quando o motivo parece desproporcional pra você. “Eu vejo que você está com medo da cadeira do dentista” valida. “Não tem nada pra ter medo” invalida, mesmo dito com toda a boa intenção do mundo.

Uma revisão publicada na revista científica Research, Society and Development reúne evidências de que crianças que aprendem a nomear e reconhecer suas próprias emoções desenvolvem melhor autorregulação emocional a partir dos 8 anos de idade, e que competências socioemocionais bem desenvolvidas estão associadas a até 11% de melhora no desempenho acadêmico. Essa mesma literatura descreve pais e cuidadores como os principais responsáveis por ensinar a criança, desde cedo, se suas emoções são aceitáveis ou não, antes mesmo da escola, antes de qualquer consultório.
E o outro lado também está documentado: quando os sentimentos da criança são repetidamente ignorados ou ridicularizados, isso é associado, na literatura, a mais isolamento social, ansiedade, depressão e dificuldade de lidar com situações do dia a dia até na vida adulta. Validar não é sobre ceder a tudo que seu filho pede, é sobre garantir que ele não aprenda, desde pequeno, que sentir é um problema.
Uma forma simples de fazer isso no dia a dia: primeiro nomeie a emoção (“você parece frustrado”), depois legitime (“faz sentido se sentir assim”) e só então ajude a resolver a situação. A ordem importa, pular direto para solução, sem passar pela validação, costuma deixar a criança com a sensação de que ninguém entendeu o que ela sentiu, mesmo que o problema prático tenha sido resolvido.
E o medo do dentista, é normal?
Muito. E seu filho chora, resiste ou trava na cadeira, ele está longe de ser exceção, e isso não é “frescura” nem falta de educação.
E existem algumas causas bem recorrentes: experiências odontológicas anteriores desagradáveis, o barulho de instrumentos como a caneta de alta rotação e, esse ponto eu acho especialmente importante pra você, que é da família, comentários negativos de parentes sobre “ir ao dentista”, que geram insegurança mesmo antes da primeira consulta da criança. Crianças mais velhas, que já sentiram dor ou passaram por anestesia antes, costumam ter mais resistência do que as pequenas no primeiro contato com o consultório.
E tem um dado que eu acho que vale a pena eu te contar diretamente: estudos brasileiros mostram que técnicas não restritivas, como “dizer-mostrar-fazer” (eu explico o que vou fazer, mostro o instrumento e só depois faço), reforço positivo, controle de voz, têm aceitação de 77% a 100% entre os pais. Já técnicas mais restritivas, como segurar a criança com mais firmeza em situações específicas, têm aceitação bem mais baixa, a não ser que eu explique antes, com clareza, por que e quando eu preciso usar isso. Quando explico, a aceitação praticamente dobra. Por isso eu sempre vou preferir te explicar antes do que simplesmente agir.
O que você pode fazer em casa
Algumas coisas que costumo pedir para as famílias que atendo:
- Evite falar mal do dentista na frente do seu filho, mesmo contando sua própria experiência de infância (“eu tinha muito medo”, “doía muito antigamente”). A criança absorve esse medo antes mesmo de sentar na cadeira.
- Não use o dentista como ameaça (“se não escovar o dente, vai ter que ir ao dentista e vai doer”). Isso me transforma em figura de castigo, não de cuidado.
- Prepare a visita com antecedência, em linguagem simples e verdadeira, sem prometer que “não vai doer nada” quando você não tem certeza disso. A confiança do seu filho depende de você não prometer o que não pode garantir.
- Valide o medo antes de tranquilizar: “eu sei que essa cadeira parece estranha e isso pode dar medo, mas eu vou ficar bem pertinho de você” costuma funcionar muito melhor do que “não precisa ter medo”.
- Traga seu filho para consultas de rotina antes de existir dor ou urgência, pra que a primeira experiência dele comigo não fique associada a sofrimento.
- Fique de olho em mudanças de comportamento mais amplas, não só relacionadas ao dentista: irritabilidade persistente, isolamento, alterações de sono ou apetite, queda no desempenho escolar. Esses sinais merecem escuta e, quando necessário, apoio profissional especializado, não só paciência da sua parte.
O que eu faço aqui no consultório
Do meu lado, o cuidado emocional também precisa ser parte do atendimento:
- Reservo os primeiros minutos da consulta, principalmente da primeira, para conversar com a criança antes de qualquer procedimento, em vez de ir direto pra cadeira.
- Uso a técnica “dizer-mostrar-fazer”: explico o que vai acontecer, mostro o instrumento (deixo tocar, quando dá) e só depois faço.
- Combino algum sinal de “pausa” com a criança, para que ela sinta que tem algum controle sobre a situação.
- Explico antes para você, responsável, o motivo e o momento de usar qualquer técnica de manejo mais firme porque, como te contei, isso muda completamente a confiança da família no processo.
Uma conversa que eu quero continuar com você
Quando seu filho sai daqui sentindo que foi ouvido, que o medo dele foi levado a sério e que ele teve alguma palavra sobre o que aconteceu com o próprio corpo, ele não está só tendo uma boa consulta odontológica. Ele está aprendendo, fora de casa, que o que ele sente importa, e é exatamente essa a mensagem que eu queria deixar com você.
O Setembro Amarelo é um lembrete necessário. Mas esse cuidado com presença, escuta sem julgamento, validação, não cabe em um mês só. Cabe em cada consulta, em cada conversa em casa, em cada vez que seu filho tenta te dizer, do jeito que ele consegue, que algo não está bem. E se, lendo isso, alguma coisa te preocupou de verdade sobre o seu filho, eu quero que você saiba que pode trazer essa dúvida pra conversar comigo na próxima consulta, ou procurar um profissional de saúde mental. Essa porta está sempre aberta, em qualquer mês do ano.
Fontes e referências
- Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS). Saúde mental dos adolescentes.
- Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Hospitalização de adolescentes por transtornos mentais aumenta e preocupa pediatras.
- Setembro Amarelo — Prevenção ao Suicídio Brasil. www.setembroamarelo.com.
- A Crítica. CVV fez 2 milhões de atendimentos e abre o Setembro Amarelo 2026.
- Unimed Inconfidentes. As origens do Setembro Amarelo.
- Research, Society and Development. A importância da validação das emoções das crianças.
- Diálogos em Saúde (IESP). Medo infantil frente ao tratamento odontológico: uma revisão da literatura.
- Revista Odonto (BVS). Ansiedade relacionada ao tratamento odontológico em pacientes infantis: uma revisão da literatura.
- Grisolia, B. M. et al. (2021). Prevalence of dental anxiety in children and adolescents globally: A systematic review with meta-analyses. International Journal of Paediatric Dentistry. Resumo via Wiley Online Library — dados de prevalência sintetizados em DOCS Education.
Este artigo tem finalidade educativa e não substitui avaliação individual com pediatra, odontopediatra ou profissional de saúde mental. Se você ou alguém que você conhece está em sofrimento emocional ou risco, o CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso 24h por dia pelo telefone 188, além de chat e e-mail em cvv.org.br.





