Seu filho está trocando os dentes? Você precisa saber disso

Um dente mole, um sorriso janelinha, uma moeda escondida embaixo do travesseiro. A troca dos dentes é um dos rituais mais marcantes da infância, e quase todo pai e toda mãe guarda na memória a primeira vez em que o filho chegou correndo com um dentinho na mão.

Mas, por trás desse momento divertido, acontece uma das fases mais importantes para a saúde bucal da vida inteira. É nesse período que o sorriso definitivo do seu filho está sendo construído, dente por dente. E as escolhas feitas agora, em casa e no consultório, acompanham a criança até a vida adulta.

Neste artigo, você vai entender quando a troca começa, em que ordem os dentes caem, quais curiosidades fazem dessa fase algo tão especial, quais sinais merecem atenção e, principalmente, como cuidar para que essa transição aconteça da forma mais saudável possível.

Quando começa a troca e em que ordem os dentes caem

A criança tem 20 dentes de leite, que costumam estar todos na boca por volta dos 2 a 3 anos. A troca, chamada pelos dentistas de dentição mista, normalmente começa por volta dos 6 anos e se estende até os 12 ou 13 anos, e aí os sisos, que só aparecem na boca depois dos 15 anos até os 18 surgem, e temos a dentição permanente que fica praticamente completa, com 28 dentes (32, contando os sisos).

Durante cerca de seis anos, portanto, dentes de leite e dentes permanentes dividem o mesmo espaço. Não por acaso, muitos odontopediatras chamam esse período de “fase do patinho feio”: se refere ao espaçamento que fica quando os incisivos permanentes se posicionam. Na maior parte das vezes, tudo se acomoda com o crescimento da face.

A sequência mais comum é esta e está dividida em 2 fases transicionais:

FaseIdade aproximadaO que acontece




Primeira fase transicional
6 a 7 anosCaem os incisivos centrais inferiores (os dois da frente, embaixo). Nasce o primeiro molar permanente, no fundo da boca
7 a 8 anosTroca dos incisivos centrais superiores e dos incisivos laterais inferiores
8 a 9 anosTroca dos incisivos laterais superiores
Segunda fase transicional – perda dos ultimos dentes decíduos e finaliza a dentição mista9 a 12 anosTroca dos caninos e dos molares de leite, que dão lugar aos pré-molares
11 a 13 anosNascem os segundos molares permanentes
A partir dos 17 anosPodem nascer os terceiros molares (sisos), que nem todo mundo tem

Vale um lembrete importante: essas idades são médias. Algumas crianças começam aos 5 anos, outras só perto dos 7, e isso costuma ser normal. Meninas, em geral, trocam um pouco antes dos meninos. Comparar o sorriso do seu filho com o do coleguinha raramente ajuda; acompanhar com o odontopediatra, sim.

Curiosidades que quase ninguém conta sobre a troca

O primeiro dente permanente não substitui ninguém. Muitos pais esperam o primeiro dente cair para só então pensar em dente permanente. Existe uma variação , tem crianças que realmente perdem primeiro os incisivos e depois os molares nascem, mas em outras o molar nasce primeiro. 

Esse molar começa a se formar antes de o bebê nascer. A formação do primeiro molar permanente tem início ainda na gestação, por volta do quinto mês. Ou seja, ele passa anos sendo preparado dentro do osso antes de aparecer.

Ele é considerado a “chave” da mordida. Os primeiros molares ajudam a manter a relação entre a arcada de cima e a de baixo enquanto os outros dentes vão sendo trocados. Perdê-los precocemente pode afetar o alinhamento de todo o sorriso.

O dente novo pode demorar um pouco. Depois que o dente de leite cai, o permanente costuma levar de um a seis meses para aparecer por completo. Essa espera pode ser maior nos dentes de cima , nos incisivos superiores a gente considera até 6 meses normal. Uma espera maior merece avaliação, mas não é motivo para pânico.

Os dentes de leite guardam o lugar dos permanentes. Eles funcionam como mantenedores de espaço naturais. Quando um dente de leite é perdido cedo demais por cárie ou trauma, os vizinhos podem se inclinar para o espaço vazio e o permanente nasce sem lugar.

Troca dos dentes

Nem todo mundo tem o mesmo número de dentes. Algumas pessoas nascem sem a formação de um ou mais dentes permanentes (agenesia). Outras têm dentes extras, os chamados supranumerários, que podem atrapalhar a erupção dos demais. Ambos são identificados com exames de imagem no acompanhamento. Por isso é tão importante a realização da rx panorâmica durante a fase da dentição mista. Leia mais sobre a importância do raio-x no diagnóstico da cárie.

Sinais de alerta: quando procurar o odontopediatra

Na maioria das vezes, a troca acontece de forma tranquila. Ainda assim, alguns sinais indicam que vale marcar uma avaliação sem esperar a próxima consulta de rotina:

  • O dente permanente nasceu atrás do dente de leite, e o de leite continua firme (a famosa “dentição em dupla fileira” ou “dente de tubarão”)
  • O dente de leite caiu há mais de seis meses e o permanente ainda não deu sinal de vida
  • Seu filho já passou dos 8 anos e nenhum dente começou a amolecer
  • Apenas um lado trocou, e o dente correspondente do outro lado continua sem previsão
  • A gengiva está muito inchada, roxa, com pus ou a criança se queixa de dor persistente
  • O dente de leite caiu cedo demais por cárie, batida ou extração
  • Há manchas brancas, amareladas ou acastanhadas nos dentes novos, ou o esmalte parece frágil e esfarelando
  • Os dentes estão nascendo muito tortos, encavalados ou a mordida parece “desencaixada”
  • A criança respira pela boca, ronca, chupa o dedo ou ainda usa chupeta

Marcou algum item? Não precisa se assustar. Muitos desses quadros têm soluçõessolução simples quando identificados cedo. O problema costuma estar justamente em esperar demais.

Como cuidar dos dentes em casa durante a troca

A fase da troca coincide com um momento em que a criança quer mais independência, inclusive na hora de escovar os dentes. É natural, e é bom incentivar. Mas a coordenação motora fina ainda está em desenvolvimento, e o primeiro molar permanente fica tão no fundo da boca que até adultos têm dificuldade de alcançá-lo. Por isso, deixe seu filho escovar sozinho e depois faça um “repasse”, principalmente à noite.

Eu sempre recomendo que os pais usem uma escova unitufo para dar atenção especial aos primeiros molares permanentes quando estão erupcionando porque eles são os dentes mais comuns de ter cárie.

O creme dental deve conter flúor em concentração mínima de 1.000 ppm, informação que aparece na embalagem. O segredo está na quantidade: para crianças que já sabem cuspir, o equivalente a um grão de ervilha é suficiente. Mais pasta não significa mais proteção.

Os molares recém-nascidos merecem atenção especial. Enquanto ainda estão saindo da gengiva, ficam um pouco abaixo dos outros dentes, e a escova costuma passar por cima sem limpá-los. Uma dica prática é posicionar a escova de lado, vindo da bochecha em direção ao dente. Ou utilizar a escova unitufo. O fio dental também entra na rotina, principalmente onde os dentes já se tocam.

E o dente mole? Deixe a natureza agir. Quando o dente estiver só “pendurado”, a própria criança costuma resolver com a língua ou ao mastigar. Se cair e sangrar, uma gaze limpa pressionada por alguns minutos resolve na grande maioria dos casos. Ahhh, a água gelada também ajuda a parar de sangrar.

A alimentação

A alimentação também conta muito. Na troca, a criança passa a ter dentes novos, com o esmalte ainda amadurecendo, convivendo com rotinas de lanche escolar, sucos e guloseimas. Mais importante do que a quantidade de açúcar é a frequência: beliscar doces ao longo do dia mantém a boca em ataque ácido constante. Prefira concentrar os doces após as refeições principais e ofereça água como bebida padrão.

Por fim, se seu filho pratica esportes de contato, como futebol, lutas ou skate, converse com o odontopediatra sobre um protetor bucal. Os incisivos permanentes recém-nascidos estão entre os dentes mais atingidos em quedas e batidas na infância.


IMPORTANTE: Dependendo do esporte que a criança pratica, é muito importante utilizar protetor bucal

Por que a consulta preventiva faz tanta diferença nessa fase

Os números mostram que a prevenção funciona, mas também que ainda há muito a fazer. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde Bucal (SB Brasil 2023), do Ministério da Saúde, 53,17% das crianças de 5 anos estão livres de cárie. Isso significa que quase metade delas já chega à fase da troca com algum dente afetado.

Aos 12 anos, idade usada pela Organização Mundial da Saúde como referência, o índice CPO-D (média de dentes permanentes cariados, perdidos ou restaurados) caiu de 2,07 em 2010 para 1,68 em 2023. É uma conquista importante. Mas o mesmo levantamento mostra que esse índice mais que dobra entre os 12 e os 15 a 19 anos, já que a cárie é cumulativa. Em outras palavras: o que se previne durante a troca protege o sorriso na adolescência e na vida adulta.

E é justamente aqui que entra o primeiro molar permanente. Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), 9 em cada 10 cáries em crianças em idade escolar acontecem nos dentes de trás, e crianças de 6 a 11 anos sem selante têm quase três vezes mais cáries nos primeiros molares do que as que receberam o tratamento. O selante é uma camada fina aplicada nos sulcos do dente, sem dor e sem anestesia, que previne cerca de 80% das cáries nos dois primeiros anos e segue protegendo contra cerca de 50% delas por até quatro anos. O melhor momento para aplicá-lo é logo após a erupção do molar, por isso o acompanhamento regular é tão valioso.

O que o odontopediatra avalia durante a troca

  • Se a sequência e o ritmo da troca estão dentro do esperado para a idade
  • A presença de cárie, manchas ou defeitos de esmalte nos dentes novos
  • A indicação de selantes e aplicação de flúor profissional, de acordo com o risco de cárie de cada criança
  • Espaço disponível para os dentes permanentes e sinais precoces de má oclusão
  • Hábitos como chupeta, sucção de dedo, respiração bucal e ranger de dentes
  • A necessidade de exames de imagem para conferir dentes que ainda não nasceram
  • Orientação de higiene e alimentação ajustada à fase da criança

Em geral, o retorno a cada seis meses é suficiente, mas o intervalo pode ser menor para crianças com maior risco de cárie. E, além do diagnóstico, a consulta regular tem outro benefício que muita gente subestima: criar uma relação de confiança. A criança que vai ao dentista para prevenir, e não só quando sente dor, aprende que aquele ambiente é seguro.

E quando a criança tem muito medo?

Algumas crianças, mesmo com todo o acolhimento, sentem medo ou ansiedade intensa diante do tratamento. Outras têm necessidades especiais ou precisam de procedimentos mais longos. Nesses casos, a sedação consciente com óxido nitroso é uma aliada.

Nela, a criança permanece acordada, respirando sozinha e capaz de responder a comandos, mas fica mais calma e relaxada. Uma das técnicas mais conhecidas é a sedação inalatória com óxido nitroso e oxigênio, cujo efeito passa rapidamente ao final do atendimento. O procedimento deve ser feito por profissional habilitado, em ambiente equipado e com monitoramento contínuo, como orientam as diretrizes da Academia Americana de Odontopediatria e da Academia Americana de Pediatria. A indicação é sempre individual e discutida com a família.

O objetivo, porém, é que a sedação seja exceção, e não regra. Quanto mais cedo a criança cria vínculo com o odontopediatra e quanto mais a rotina é preventiva, menor a chance de precisar de tratamentos complexos.

Um sorriso que está sendo construído agora

A troca dos dentes é uma fase de transição, mas nada nela é passageiro. Cada dente permanente que nasce agora vai acompanhar seu filho por décadas. Escovação supervisionada, creme dental com flúor na quantidade certa, alimentação equilibrada, cuidado especial com os molares e visitas regulares ao odontopediatra não funcionam isoladamente: é o conjunto desses hábitos que faz a diferença. O que a gente faz aqui é plantar uma semente para uma dentição permanente saudável e funcional no futuro.

E lembre-se: dúvidas são sempre bem-vindas. Se algo na troca do seu filho chamou sua atenção, marque uma avaliação. Na odontopediatria, quase sempre é mais simples cuidar cedo do que tratar depois.

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Fontes

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